Procurando Nemo

 

Já faz muito tempo que o cinema se utiliza do mar e de seus habitantes para nos assustar ou nos cativar. Desde as mais fantasiosas estórias como do polvo gigantesco que atacava navios em “20000 Léguas Submarinas” até a vingativa baleia de “Mobydick”.

Quem não ouviu falar, ou se lembra, da ansiedade e medo que a música do filme “Tubarão” imprimia em todos que a ouviam. Recentemente fomos surpreendidos pela qualidade gráfica e fidelidade das características dos peixes em “Procurando Nemo”.

O filme acentuou em muitos de nós o respeito e admiração por este peixinho e despertou uma paixão ainda maior em milhões de adultos e crianças. O impacto foi tão importante que milhares, senão milhões de pessoas, pensaram em montar um aquário marinho só para levar para casa um Nemo e sua amiga Dory. Que sina a do (Paracanthurus) Hepatus ou Blue Tang. Para sempre ficou marcado com um nome de mulher. Crianças, mesmo muito pequenas, aprenderam que a casa do peixinho palhaço se chama Anêmona,que ele nasce de um ovo e vive no fundo do mar. Mas não é de hoje que a maravilhosa, surpreendente e espantosa relação entre um peixe e sua anêmona (simbiose) são admiradas.
Um dos primeiros registros sobre anêmonas e palhaços esta datado de 1868, com a primeira descrição científica feita pelo Dr. Cuthbert

Citação:
Collingwood que escreveu:
-While standing in the water, breast high, admiring this splendid zoophyte (sea anemone), I noticed a very pretty little fish which hovered in the water close by, and nearly over the anemone. This fish was six inches long, the head bright orange, and the body vertically banded with broad rings of opaque white and orange alternatively, three bands of each…… I made several attempts to catch it; but it always eluded my efforts – not darting away, however, as might be expected, but always returning presently to the same spot. Wandering about in search of shells and animals, I visited from time to time the place here the anemone was fixed, and each time, in spite of all my disturbance of it, I found the little fish there also.


Numa tradução livre:
Enquanto estava na água, em pé, admirando este zoophyte esplêndido (anêmona de mar), eu observei um peixe pequeno muito bonito que pairava na água quase sobre a anêmona. Este peixe tinha seis polegadas de comprimento, a cabeça laranja brilhante, e o corpo unido verticalmente com anéis largos de branco opaco e da laranja alternadamente, três faixas de cada um...... Eu fiz diversas tentativas para capturá-lo; mas ele sempre iludiu meus esforços –não se afastando entretanto para longe, como podia se esperar, mas sempre retornando ao mesmo ponto. Vagueando na busca das conchas e dos animais, eu visitei de tempos em tempos o lugar em que a anêmona estava fixa, e cada vez, apesar de todo o distúrbio (que causei), eu encontrei os peixes pequenos lá também.

- Quem são esses animais?
Os palhaços são animais que pertencem ao Reino Animal, Filo Chordata, Sub-filo Gnathostomata, Super Classe Peixes, Classe Osteichthyes, Ordem Perciformes, Família Pomacentridae, Sub-Familia Amphiprioninae, Gênero Amphiprion e Premnas.

Anêmonas são animais que pertencem ao Reino Animal, Filo Cnidária, Classe Anthozoa, Ordem Actiniaria. As anêmonas que na natureza hospedam palhaços pertencem às famílias: Actiniidae, Thalassianthidae e Stichodactylidae.

- De onde vêm e quantos são?Peixes palhaços são encontrados em uma vasta região do Oceano Pacífico, Índico e Mar Vermelho.

Iniciando a Noroeste pelo Mar Vermelho e descendo a sudoeste pela costa leste da África até a África do sul. Ao norte no Mar da Arábia subindo pelo Golfo Pérsico, passando pelo Golfo de Bengali, Mar da China e ao sul do Japão. A oeste pelo Oceano Pacífico na Polinésia Francesa seguindo em direção leste até o nordeste da Austrália. É nessa imensa região tropical com mais de 53.000 km de extensão que encontramos esses esplendidos animais divididos em 28 espécies.
Anêmonas são encontras dos pólos até as regiões equatoriais, numa grande diversidade de profundidades, latitudes e longitudes, divididos em mais de 1000 espécies.

Entretanto a maior concentração de peixes palhaço e anêmonas são encontrados na região conhecida como Micronésia, ao norte da costa de Papua Nova Guiné.

Nenhum peixe palhaço é encontrado no norte, nordeste ou sudoeste do Oceano Pacífico assim como em nenhuma região do Mar Mediterrâneo ou Oceano Atlântico.

- Como se relacionam?
A fantástica associação que estes animais estabelecem entre si é chamada de Simbiose, que em biologia, é classificada como uma interdependência de dois organismos de espécies diferentes. Esta associação pode ainda ser sub-dividida e melhor classificada como Mutualismo, um tipo de simbiose na qual os organismos cooperantes, ou simbiontes, obtêm um benefício mútuo, como a que se observa entre o palhaço e sua anêmona.

Anêmonas são animais que possuem tentáculos e diversos tipos de células recobrem sua “pele”. Uma destas células especializadas é chamada de cnidócitos. Os cnidócitos possuem estruturas chamadas nematocistos, que podem atuar para: prender ou segurar um animal ou para injetar uma toxina. Os nematocistos podem ser “disparados” quando estimulados física ou quimicamente, e ao penetrarem na pele do “agressor” podem paralisar ou provocar sensação de ardência.
O grande segredo do relacionamento entre o palhaço e sua anêmona está nesse mecanismo, ou melhor, na inibição desse mecanismo, ou ainda na neutralização desse mecanismo. A verdade é que isso ainda não foi completamente esclarecido pela ciência. Joyce Wilkerson escreveu : “Este recurso de proteção dos palhaços é nato, induzido ou adquirido?”
No momento, o que sabemos é que alguns animais rapidamente entram na anêmona e aparentam estarem adaptados, enquanto que outros podem levar horas e mesmo alguns dias até se aclimatarem.
O início deste relacionamento se dá também no início da vida dos palhaços. Para entender isso um pouco melhor veja:
Um casal sexualmente maduro, com um território estabelecido e (na natureza) com a sua anêmona, seleciona uma superfície, rígida e próxima a sua anêmona como local para desova. Se esta superfície rígida não está disponível, o casal pode carregar, mover, transportar qualquer coisa que atenda as suas necessidades mesmo de grandes distâncias ou de peso muito superior ao deles.

Uma vez escolhido o local, ele é escrupulosamente limpo. A fêmea então deposita os ovos que são fertilizados pelo macho, cada ovo tem aproximadamente 2mm. Em matéria de reprodução este é todo o trabalho da fêmea. A partir de agora sua tarefa será de guarda para que nenhum invasor se aproxime dos ovos (mais um fato real reproduzido no filme). O macho então realizará toda a tarefa de cuidar dos ovos. Sua atividade mais importante é abanar suas nadadeiras sobre o ninho para ventilar, oxigenando os ovos e impedindo que fungus se desenvolvam.
Após um período de tempo que varia de acordo com o tipo de palhaço e a temperatura da água, os ovos se rompem e as pequenas larvas (aproximadamente 3mm) ainda com saco vitelino se libertam e nadam em direção a luz, permanecendo de 7 a 14 dias na superfície, nesse momento são parte do plâncton. Após se desenvolverem até aproximadamente 10 mm, uma incrível alteração ocorre. É chamada de metamorfose, quando ainda na sua forma larval e sem cor, se transformam em pequenas miniaturas de palhaçinhos e se dirigem ao fundo. Alguns autores invertem essa ordem dizendo que primeiro se dirigem ao fundo e depois se transformam.

O fato é que no momento que se dirigem ao fundo os pequenos palhaçinhos procuram por uma anêmona em que possam se abrigar. Sua sobrevivência daqui para frente está diretamente ligada ao fato de localizarem uma anêmona, serem admitidos pelo grupo que ali se encontra e se aclimatarem. Passarão o resto de seus dias “confinados” junto a esse animal só se afastando à medida que crescem e sobe na escala social.

É bem conhecido dos aquaristas o evento em que um palhaçinho intencionalmente carrega alguma comida e deposita sobre sua anêmona, aparentemente pagando por sua proteção ou reafirmando a interdependência entre os animais. Dafne G. Fautin e Gerald R. Allen contestam que isso ocorra na natureza. Este comportamento só é observado em aquários.

Toda anêmona pode ser “habitada” por uma comunidade em que uma rígida escala social está em ordem. Todo recém-chegado que é aceito, ocupa o mais baixo nível nessa escala e dispenderá seu tempo escapando da perseguição dos outros membros da comunidade, dos ataques dos predadores e procurando por comida. Como é o menor, gasta muito desse tempo evitando ou escapando da perseguição perpetrada pelos “mais velhos”, gastando muito de sua energia nessa tarefa. Como também é o último na competição por alimento, seu crescimento é lento, praticamente obrigando-o a ficar num estágio de permanente adolescência.

Outra incrível característica desses animais é encontrada aqui. Todos os animais crescem e se desenvolvem como machos, e de acordo com o seu nível da escala social se desenvolvem, permanecendo em seu estágio mais alto como jovens adultos não reprodutores. Essa submissão ao casal dominante se dá não somente em relação à obtenção do alimento, mas também ao tamanho relativo de cada animal dentro da escala social. Quanto maior o animal, mais alto se encontra na escala. O Casal dominante e reprodutor é formado por uma fêmea adulta e por um macho adulto. Se por qualquer eventualidade ocorrer a perda de macho reprodutor, o primeiro macho adulto logo abaixo na escala, cresce velozmente, amadurecendo e rapidamente atingindo a condição de macho reprodutor. Entretanto se a perda ocorrer com a fêmea, teremos a fantástica transformação do macho reprodutor, que crescerá e numa reversão de sexo será a nova fêmea da comunidade. Esta incrível seqüência garante que sempre existirá um casal reprodutor para manutenção da espécie.

- Palhaços e Anêmonas
Agora que sabemos que existem 28 espécies diferentes de palhaços e mais de 1000 espécies de anêmonas, poderíamos pensar que é muito simples estabelecer essa simbiose entre eles, infelizmente não é simples nem fácil assim.
De todas as espécies de anêmonas conhecidas somente 10 delas estabelecem simbiose com palhaços na natureza e nem assim a relação é um-para-um.

O mecanismo de atração e de preferência também não é totalmente conhecido, o que podemos dizer é que as interações são bem conhecidas. Lembra as famílias que apresentamos lá em cima? Então vamos em frente.

Por convenção, sempre que enumeramos membros de uma mesma família, somente o primeiro será descrito com o nome por extenso da família com a inicial em maiúsculo, seguido do nome da espécie iniciando em minúsculo, outros membros da mesma família terão o nome da família abreviado para a letra inicial.
Dos palhaços temos em ordem alfabética: Amphiprion akallopisos, A. akindynos, A. allardi, A. bicinctus, A. chagosensis, A. chrysogaster, A. chrysopterus, A. clarkii, A. ephippium, A. frenatus, A. fuscocaudatus, A.latezonatus, A. latifasciatus, A. leucokranos, A. mccullochi, A. melanopus, A. nigripes, A. ocellaris, A. omanensis, A. percula, A. perideraion, A. polymnus, A. rubrocinctus, A. sandaracinos, A. sebae, A. thiellei, A. tricinctus e Premnas biaculeatus.
Das anêmonas temos: família Actiniidae: Entacmaea quadricolor e Macrodactyla doreensis; família Stichodactylidae: Heteractis aurora, H. crispa, H. haddoni, H. magnífica e H.malu, Stichodactyla gigantea e S. mertensii; família Thalassianthidae: Cryptodendrum adhaesivum.

Veja na tabela abaixo as interações conhecidas segundo Dafne G. Fautin e Gerald R. Allen. Mais um detalhe importante, apesar desta lista enumerar as preferências entre palhaços e anêmonas, não é possível garantir que ao adquirir um palhaço e sua anêmona de preferência, a simbiose se estabeleça.


Entacmaea quadricolor
Premnas biaculeatus Amphiprion allardi
A. akindynos A. chrysopterus
A. clarkii A. frenatus
A. ephippium A. mccullochi
A. melanopus A. omanensis
A. rubrocinctus A. tricinctus

Macrodactyla doreensis
Amphiprion clarkia A. chrysogaster
A. perideraion

Heteractis aurora
Amphiprion clarkii A. akindynos
A. allardi A. bicinctus
A. chrysogaster A. chrysopterus
A. tricinctus

Heteractis crispa
Amphiprion clarkii A. bicinctus
A. akindynos A. chrysopterus
A. ephippium A. lazeolatus
A. leucokranos A. melanopus
A. omanensis A. perideraion
A. polymnus A. sandaracinos
A. tricinctus

Heteractis haddoni
Amphiprion clarkii A. akindynos
A. chrysogaster A. chrysopterus
A. polymnus A. sebae

Heteractis magnífica
Amphiprion bicinctus A. akallopisos
A. clarkii A. chrysogaster
A. chrysopterus A. leucokranos
A. melanopus A. nigripes
A. ocellaris A. percula
A. perideraion

Heteractis malu
Amphiprion clarkii

Stichodactyla gigantea
Amphiprion bicinctus A. akindynos
A. clarkii A. ocellaris
A. percula A. perideraion
A. rubrocinctus

Stichodactyla mertensii
Amphiprion allardi A. clarkii
A. akallopisos A. akindynos
A. chrysogaster A. chrysopterus
A. fuscocaudatus A. latifasciatus
A. leucokranos A. ocellaris
A. sandaracinos A. tricinctus

Cryptodendrum adhaesivum
Amphiprion clarkii

Agora que você conhece um pouco mais os palhaços e suas anêmonas, aproveite para se divertir um pouco mais com eles.

Referencias:

- Procurando Nemo é marca registrada da Disney Enterprises Inc e Pixar Animation Studios.
- Dr. Cuthbert Collingwood: Rambles of a Naturalist on the Shores and Waters of China Sea 1868, pag 151.
- Joyce D. Wilkerson – Clownfishes A guide to their Captive Care, Breeding & Natural History
- Dafne G. Fautin, Gerald R. Allen – Anemone Fishes and Their Host Sea Anemones.


Mauricio Foz.